sábado, 11 de junho de 2011

Gabarito Comentado - Magistério de São Gonçalo (Professor I) - CEPERJ / 2011

Leia o texto a seguir e responda às questões de número 01 a 10.

POR QUE O BRASILEIRO COMPRA LIVROS, MAS NÃO LÊ

Dos grandes autores, Saramago foi o mais comprado no ano que termina. Mas não terá sido o mais lido – Faulkner, Guimarães Rosa, Euclides da Cunha também tiveram mais compradores que leitores. Por quê? São autores difíceis. Difíceis em quê? Eles propõem problemas aos leitores, a começar pelo problema da forma. O leitor médio brasileiro só alcança o nível dos autores de entretenimento puro, de autoajuda ou curiosidades. Não o constato para me vangloriar, pois a cultura intelectual não confere em si qualquer superioridade.
E por que a maioria dos brasileiros compradores de livros não consegue ler autores “de proposta”, que nos fazem estranhar a realidade, usando para isso alguma criatividade formal? A primeira resposta é óbvia: o nível da educação brasileira é baixo. Assim continuará nas próximas décadas, se não reformarmos o ensino.
Uma segunda resposta é que a filosofia morreu. Filosofia, como sabe o leitor, tem muitas acepções. A mais elementar é a de sabedoria. Uma acepção mais elevada é a disciplinar, sinônima de história da filosofia: sucessão de escolas, grandes pensadores e sistemas de pensamento que nos empurravam no antigo colegial. Nesses dois sentidos, a filosofia continuará viva por muito tempo. Mas não é em qualquer deles que falo ao dizer que a filosofia morreu; e sua morte é uma razão de os leitores brasileiros não conseguirem curtir autores como Saramago. É na acepção seguinte.
A filosofia que morreu foi a arte de interpelar o mundo, a começar por si mesmo, elaborando narrativas críticas da vida. Uma crença das últimas gerações é a do presente contínuo: passado e futuro, experiência e projeto, fundamento e destino, não servem
para nada. Não o constato com saudade do tempo em que as humanidades entupiam os currículos; não há nada no passado que deva ser trazido de volta.
Saramago vendeu muito, mas foi pouco lido. O português é um autor filosófico. Cada um dos seus romances propõe, sem resolver, um problema, a começar pela forma com que nos apresenta suas interpelações. É um autor difícil. Nós é que de uns anos para cá ficamos fáceis.
(Joel Rufino dos Santos, Revista Época, 28 de dezembro de 2010, com adaptações)

01. Dentre os problemas propostos aos leitores pelos grandes autores existe o da forma, que consiste na utilização da linguagem:
A) denotativa
B) conotativa
C) coloquial
D) culta
E) polissêmica

Resposta D
Comentário: Ao se referir à forma, devemos pensar, em primeiro lugar, na questão da norma culta (ou seja, formal) que é um grande problema quando não a dominamos.

02. No segmento “Não o constato para me vangloriar...” (l. 7/8), o pronome empregado em terceira pessoa refere-se:
A) ao autor do texto em análise
B) ao leitor médio brasileiro
C) ao parágrafo seguinte àquele em que o pronome se insere
D) ao período que precede aquele em que o pronome se insere
E) ao problema da forma enfrentado pelos autores

Resposta D
Comentário: Nessa questão, trabalhou-se o conceito de coesão, ou seja, quando um termo faz referência a outro. Aqui, é importante que o candidato volte ao texto. Quando o autor diz “Não o constato”, quer dizer que constata algo (representado pelo pronome oblíquo). Deve-se identificar o que foi constatado pelo autor. A constatação é de que “O leitor médio brasileiro só alcança o nível dos autores de entretenimento puro, de autoajuda ou curiosidades.”. Isso está no período anterior, portanto a resposta só pode ser a letra D.

03. Segundo o texto, entende-se por autores “de propostas” aqueles que propõem:
A) atitudes
B) problemas
C) soluções
D) respostas
E) roteiros
Resposta B
Comentário: Pode-se identificar essa questão no primeiro parágrafo: “Eles propõem problemas aos leitores” OU no último parágrafo: “Cada um dos seus romances propõe, sem resolver, um problema”. (autores “de propostas” = aqueles que propõem alguma coisa. Nesse caso, a proposta são os problemas.
04. No trecho “Filosofia, como sabe o leitor, tem muitas acepções. A mais elementar é a de sabedoria.” (l. 16/17), na afirmativa em destaque, faz-se uma referência:
A) à fonologia do termo “sabedoria”
B) à morfologia do vocábulo “sabedoria”
C) à sintaxe da frase em destaque
D) à grafia simples da palavra “filosofia”
E) à etimologia da palavra “filosofia”

Resposta E
Comentário: Quando o autor diz que a acepção mais elementar é a sabedoria, quer dizer que é o sentido mais simples ou essencial, no caso é a sabedoria. Para isso, faz-se necessário o conhecimento da palavra filosofia cuja etimologia é philia que significa amizade e amor fraterno; a segunda significa sabedoria ou simplesmente saber. Filosofia significa, portanto, amizade pela sabedoria, amor e respeito pelo saber.

05. No segmento “Mas não terá sido o mais lido...” (l. 2), o emprego do tempo futuro indica:
A) fato tomado como verdade universal
B) que o fato futuro é quase certo
C) a possibilidade de um fato passado
D) que o fato estará concluído antes de outro que lhe é posterior
E) ordem atenuada ou um pedido

Resposta C
Comentário: Embora o verbo esteja no futuro, é importante reconhecer o sentido do futuro do presente composto que é diferente do futuro do presente simples. (terá sido lido é diferente de será lido). O futuro do presente composto indica um fato posterior ao tempo atual, mas anterior a outro fato futuro (ex: Quando ele chegar, já terei saído). Ou seja, marca um fato passado.

06. Segundo o autor, a filosofia que morreu foi aquela que:
A) pode ser definida como “amor ao saber”
B) é entendida como história da filosofa e seus filósofos
C) se refere a sistemas de pensamentos filosóficos
D) é tida como sucessão de escolas filosóficas
E) faz questionamento sistemático do mundo e do eu

Resposta E
Comentário: Podemos identificar essa questão no primeiro período do quarto parágrafo: A filosofia que morreu foi a arte de interpelar o mundo, a começar por si mesmo...

07. Contém expressão expletiva ou de realce o segmento:
A) “Dos grandes autores, Saramago foi o mais comprado no ano que termina.” (l. 1/2)
B) “Mas não terá sido o mais lido.” (l. 2)
C) “Mas não é em qualquer deles que falo ao dizer...” (l. 20/21)
D) “A filosofia que morreu foi a arte de interpelar o mundo...” (l. 24)
E) “Cada um dos seus romances propõe, sem resolver, um problema...” (l. 32/33)

Resposta C
Comentário: expressão expletiva ou de realce serve para enfatizar uma ideia. A sua retirada não prejudica a estrutura sintática da oração. Podemos observar o emprego dessa expressão na letra C com a expressão “ao dizer” logo após o verbo falar.

08. Dentre os segmentos abaixo, aquele cujo verbo pode ser flexionado no singular ou no plural, sem prejuízo semântico-gramatical, é:
A) “E por que a maioria dos brasileiros compradores de livros não consegue...” (l. 10/11)
B) “Mas não terá sido o mais lido...” (l. 2)
C) “Assim continuará nas próximas décadas...” (l. 13/14)
D) “...não servem para nada...” (l. 27/28)
E) “Cada um dos seus romances propõe...” (l. 32)

Resposta A
Comentário: Em “a maioria dos brasileiros” encontramos sujeito partitivo (ou seja, a parte de um todo). Segundo a regra, quando há esse tipo de sujeito, o verbo tem duas possibilidades de concordância: concorda com o núcleo do sujeito – a maioria (termo no singular); ou concorda com o especificador – dos brasileiros (termo no plural).

Letra B – “Mas não terá sido o mais lido” – o verbo refere-se a Saramago (sujeito no singular).

Letra C – o sujeito simples no singular está no período anterior: o nível da educação brasileira continuará. Só há possibilidade do uso do verbo no singular.

Letra D – o verbo está posposto ao sujeito composto, portanto deve ficar apenas no plural – “passado e futuro, experiência e projeto, fundamento e destino, não servem para nada”. 

Letra E – Em “Cada um dos seus romances propõe...”, o verbo concorda com “um”, ou seja, fica no singular.


09. No trecho “O leitor médio brasileiro alcança o nível dos autores de entretenimento puro, de autoajuda ou curiosidades.”, não determina alteração semântico-sintática e problema de coesão ou de coerência deslocar a palavra destacada no trecho, do seguinte modo:

A) o leitor médio brasileiro alcança o nível dos autores de entretenimento puro, de autoajuda ou curiosidades.
B) O leitor médio brasileiro alcança o nível dos autores de entretenimento puro, de autoajuda ou curiosidades.
C) O leitor médio brasileiro alcança o nível, dos autores de entretenimento puro, de autoajuda ou curiosidades.
D) O nível dos autores de entretenimento puro, de autoajuda ou curiosidades alcança o leitor médio brasileiro.
E) o nível dos autores de entretenimento puro, de autoajuda ou curiosidades alcança o leitor médio brasileiro.

Resposta B
Comentário: A palavra denotativa “só” equivale a “somente”. É importante saber que, ao deslocar essa palavra, pode provocar alteração sintático-semântica. Na frase do enunciado, a ideia é de que o leitor médio brasileiro alcança (no sentido de entender ou atingir) apenas (somente) o nível dos autores de entretenimento puro. O mesmo pode ser observado na letra B (alcança o nível dos autores).

Letra A – “Só (= somente) o leitor médio brasileiro alcança o nível” - significa que os outros não alcançam, apenas os médios e brasileiros.

Letra C – “alcança o nível, só (= somente) dos autores de entretenimento puro” – significa que não alcança o nível de nenhum outro autor, somente dos autores de entretenimento.

Letra D – “alcança o leitor médio brasileiro” – significa que o autor de entretenimento puro atinge só o leitor médio. Na verdade é o contrário que o enunciado disse.

Letra E – “Só (= somente) o nível dos autores de entretenimento puro alcança o leitor médio brasileiro” –o nível do autor que atinge o leitor médio e não o leitor que alcança o nível.

10. Observa-se o uso indevido da pontuação no segmento:
A) “Dos grandes autores, Saramago foi o mais comprado...” (l. 1)
B) “Difíceis em quê?” (l. 4)
C) “...autores de entretenimento puro, de autoajuda ou curiosidades.” (l. 6/7)
D) “Nesses dois sentidos, a filosofia continuará...” (l. 19/20)
E) “...fundamento e destino, não servem para nada.” (l. 27/28)
Resposta A
Comentário: Ocorreu transgressão na regra básica de pontuação: Não se separa sujeito do predicado – O correto seria “fundamento e destino não servem para nada”.


Link da prova: http://www.ceperj.rj.gov.br/concursos/saogoncalo2011/paginasaogoncalo.asp